Esaú e Jacó: um nasce pra sofrer enquanto o outro ri?

Por Carlos Augusto Vailatti

Em 1970, o saudoso Tim Maia gravou o seu primeiro disco, cuja faixa “Azul da Cor do Mar” obteve bastante sucesso. E numa das partes dessa conhecida música encontramos um curioso trecho que, se analisado a partir de uma perspectiva teológica, apresenta traços que podem ser interpretados como acentuadamente predestinacionistas. Eis a frase à qual me refiro: “na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri”. Ao me deparar com tal pensamento, repleto de significado teológico, pelo menos para mim, não tive como deixar de notar a evidente semelhança existente entre esse enunciado e o ensino de um certo sistema teológico que, ao ler a lacônica frase escriturística, “amei a Jacó e aborreci a Esaú” (Rm 9:13), interpreta-a como se esta ensinasse a abominável doutrina da “dupla predestinação”. Se seguíssemos tal doutrina, poderíamos então parafrasear esse versículo bíblico da seguinte maneira: “amei salvificamente a Jacó, o eleito, e, portanto, este primeiro ‘nasceu pra sorrir’; mas aborreci a Esaú, o réprobo, e, desse modo, este último ‘nasceu pra sofrer’ eternamente”. Talvez, essa paráfrase soe ao leitor um tanto quanto forte ou até mesmo grosseira, mas, infelizmente, ela reproduz com exatidão a crença soteriológica de um determinado seguimento cristão. Contudo, deveríamos nos perguntar, será que esse trecho de Romanos 9:13 ensina esse tipo de doutrina? Buscaremos tratar sucintamente dessa questão nas linhas que seguem.

Segundo Boettner, conhecido autor calvinista, “alguns são predestinados à morte [eterna] tão verdadeiramente quanto outros são predestinados para a vida [eterna]”.[i] E esse pensamento retrata muito bem a maneira como o Calvinismo interpreta Rm 9:13. Aliás, o próprio Calvino, comentando esse texto bíblico, declarou que “Jacó foi incorporado a Cristo para ser companheiro dos anjos na vida celestial. Jacó é, pois, eleito; e Esaú, rejeitado”.[ii] Lloyd-Jones, seguindo os passos de Calvino, afirmou que “Jacó é o salvo, ao passo que Esaú é descrito como ‘profano’ (Hebreus 12:16)”.[iii] Além desses autores, estudiosos como Hendriksen[iv] e Sproul,[v] entre outros, também compartilham pontos de vista semelhantes sobre o assunto. Todavia, estaria Romanos 9:13 ensinando a doutrina da dupla predestinação? Entendemos que este versículo em particular não esteja ensinando tal coisa por alguns motivos que serão esboçados a seguir.

Em primeiro lugar, o conceito de dupla predestinação, segundo o qual Deus decretou eleger incondicionalmente alguns indivíduos pecadores para a vida eterna e, ao mesmo tempo, decidiu ignorar o restante dos pecadores em seus pecados, é uma ofensa ao caráter todo-amoroso e todo-benevolente divino tal como revelado nas páginas da Bíblia. Como John Wesley observou acertadamente, “a dupla predestinação torna o trabalho do diabo desnecessário. Se verdadeira, Deus seria pior do que o diabo. A Escritura ensina que a soberania de Deus é dirigida por seu amor e vê o amor como o principal atributo de Deus. A predestinação absoluta desordena a primazia do amor de Deus entre os atributos divinos”.[vi]

Em segundo lugar, os antropônimos “Jacó” e “Esaú” aparecem em Romanos 9:13 como epônimos, ou seja, como designações de dois “povos”, Israel (=Jacó) e Edom (=Esaú), respectivamente, e não como referência a dois “indivíduos”. Esse fato pode ser comprovado ao lermos Ml 1:2-4, texto este de onde Paulo extrai a frase “amei a Jacó e aborreci a Esaú”. Veja o que diz um trecho de Ml 1:2-4: “2 […] amei a Jacó  3 e aborreci a Esaú; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos dragões do deserto.  4 Ainda que Edom diga: Empobrecidos somos, porém tornaremos a edificar os lugares desertos, assim diz o Senhor dos Exércitos: Eles edificarão, e eu destruirei, e lhes chamarão Termo-de-Impiedade e Povo-Contra-Quem-O-Senhor-Está-Irado-Para-Sempre”. Perceba que de acordo com Malaquias, o “Esaú” contra quem Deus está aborrecido (Ml 1:3) é “Edom”, um “Povo-Contra-Quem-O-Senhor-Está-Irado-Para-Sempre” (Ml 1:4), e não o indivíduo Esaú. Assim, torna-se evidente que o “ódio” que Deus nutre pelo povo de Edom não possui nenhuma relação com algum hipotético ato de dupla predestinação, onde os indivíduos “Jacó” e “Esaú” teriam sido predestidados respectivamente para o céu e para o inferno.

Em terceiro lugar, a frase “foi-lhe dito a ela [Rebeca]: O maior servirá o menor” (Rm 9:12), também não se aplica às pessoas de Esaú e Jacó, porque “a Bíblia nunca retrata o indivíduo Esaú servindo ao indivíduo Jacó”.[vii] Por outro lado, os descendentes de Esaú, os edomitas, serviram a Israel e a Judá ao longo da história bíblica (cf. 2 Sm 8:14; 2 Rs 8:22; 14:7; 1 Cr 18:11-13).

Por fim, em quarto e último lugar, ainda que consideremos Jacó e Esaú como indivíduos em Rm 9:13, isso não significa, contudo, que o texto esteja fazendo qualquer alusão à dupla predestinação nos moldes calvinistas. Paulo, ao citar o amor de Deus por Jacó e o seu ódio por Esaú, não está fazendo referência aos destinos eternos desses dois indivíduos, mas está, em vez disso, aludindo a papeis histórico-salvíficos ou histórico-redentivos. Em outras palavras, Deus decidiu soberanamente que seria através de Isaque, Rebeca e Jacó (e seus descendentes), e não por meio de Ismael, Agar e Esaú (e seus descendentes) que Ele levaria adiante o Seu plano prometido antes a Abraão de, por meio dele, abençoar a todas as famílias da terra (cf. Gn 12:1-3), plano este cujo ápice se daria com o advento do próprio Cristo (cf. Rm 9:4-5).

Talvez, depois de apresentarmos todos esses dados, alguém ainda possa dizer: “Está bem. Você me convenceu que Romanos 9:13 não ensina a dupla predestinação. Mas, então, como o Arminianismo entende a predestinação? Ou melhor, que lugar a predestinação ocupa na ordem arminiana dos decretos divinos?”. Segundo Stanglin e McCall, a ordem arminiana dos decretos divinos pode ser assim sumarizada:

Deus decreta:

  1. Criar;
  2. Permitir a queda;
  3. Apontar Cristo como fundamento da eleição dos redimidos;
  4. Salvar, em Cristo, (o grupo dos) crentes penitentes e condenar descrentes;
  5. Prover os meios [a graça] para o arrependimento e a fé;
  6. Salvar ou condenar indivíduos específicos e particulares, conhecidos de antemão como crendo ou não crendo.[viii]

Note que, segundo o sumário acima, a predestinação para a salvação e para a condenação, no Arminianismo, é condicional, visto que se dá com base na presciência divina da fé ou da incredulidade. Em termos bíblicos, podemos dizer que os “eleitos” (Ef 1:4) e “predestinados” (Ef 1:5,11) são os que “antes esperamos em Cristo” (Ef 1:12), os quais “tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da salvação”, finalmente creram (Ef 1:13).

Portanto, respondendo à pergunta-tema proposta pelo nosso artigo, concluímos que Esaú  não “nasceu pra sofrer” eternamente e nem tampouco Jacó “nasceu pra sorrir” salvificamente. Deus apenas escolheu este último (e sua descendência, Israel), em vez do primeiro, a fim de dar prosseguimento ao Seu plano histórico-redentivo. Nada mais do que isso. Assim, não obstante a música cantada pelo Tim Maia – segundo a qual “um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri” –  seja uma bela composição, ela encerra, contudo, uma péssima teologia.

[i] BOETTNER, Loraine. The Reformed Doctrine of Predestination. Grand Rapids, Christian Classics Ethereal Library, 1932, p.78. Os acréscimos entre colchetes são meus.
[ii] CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã. (Tomo 2). [Trad. Elaine C. Sartorelli]. São Paulo, Editora UNESP, 2009, p.392.
[iii] LLOYD-JONES, D. Martyn. Romanos: Exposição Sobre o Capítulo 9: O Soberano Propósito de Deus. [Trad. Odayr Olivetti]. São Paulo, PES, 2002, p.178.
[iv] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Romanos. [Trad. Valter Graciano Martins]. São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2001, pp.403-409.
[v] SPROUL, R. C. Eleitos de Deus. [Trad. Gilberto Carvalho Cury]. São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2009, pp.110-111.
[vi] ODEN, Thomas C. John Wesley’s Teachings. [Volume 2: Christ and Salvation]. Grand Rapids, Zondervan, 2012, p.167.
[vii] VAILATTI, Carlos Augusto. Expiação Ilimitada. São Paulo, Editora Reflexão, 2015, p.78.
[viii] STANGLIN, Keith D. & MCCALL, Thomas H. Jacob Arminius: Theologian of Grace. Oxford University Press; 1 edition (October 22, 2012)

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