Quem são aqueles que Deus de antemão conheceu?

Por Thiago Velozo Titillo

“Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8.29)

A soteriologia é o ramo da teologia que estuda a doutrina da salvação. Há uma grande disputa entre calvinistas e arminianos sobre o vocábulo grego proégno, traduzido no texto em tela por “de antemão conheceu”.

A palavra é formada pelo prefixo pro, que significa “antes de”, e o verbo ginõskõ, cujo significado é “saber”, “conhecer”. O substantivo cognato prognosis significa “presciência”, “previsão”.

Os teólogos calvinistas discordam do significado supra, pelo menos nas passagens que a palavra tem relação com a doutrina da eleição. Louis Berkhof diz que “o sentido das palavras proginoskein e prognosis no Novo Testamento não é determinado pelo uso que delas é feito no grego clássico, mas pelo sentido especial de yada’.[1] Elas não indicam simples previsão ou presciência intelectual, a mera obtenção de conhecimento de alguma coisa de antemão, mas, sim, um conhecimento seletivo que toma em consideração alguém favorecendo-o, e o faz objeto de amor, e, assim, aproxima-se da ideia de predeterminação”.[2]

A eleição condicionada à fé é um dos pontos inegociáveis da soteriologia arminiana. Não poucas vezes, Romanos 8.29 é usado como respaldo para defender a ideia. Todavia, os intérpretes calvinistas reclamam que o texto não menciona algo como a fé, ou qualquer outra coisa que Deus tenha previsto nas pessoas. Deus não previu algo, mas as próprias pessoas: “aqueles que” [“aos que”], e não “o que”.

O argumento calvinista se concretiza nas palavras de John Stott: “[…] Deus conhece todo mundo e todas as coisas de antemão, ao passo que Paulo está se referindo a um grupo específico”.[3] E aqui, seus proponentes afirmam que o grupo específico é formado por aqueles que são objetos do amor eletivo de Deus. Mas será que é isso que Paulo tem em mente?

Jacó Armínio considerou o versículo 29 afirmando que os dois significados da expressão “aos que dantes conheceu” – amor eletivo prévio e conhecimento prévio – não se excluem, “de modo que o primeiro não pode ser verdadeiro sem o segundo. Isso será evidente, desde que seja demonstrado que Deus não pode ‘amar previamente e considerar, afetuosamente, como seu’ a nenhum pecador, a menos que Ele o conheça previamente, em Cristo, e o considere como um crente em Cristo”.[4] Em seguida, Armínio cita algumas passagens para provar que Deus […] não escolhe a ninguém para a vida eterna, exceto em Cristo e por Cristo. ‘Ele nos elegeu nele’ (Ef 1.4)”.[5] Mas o texto de Romanos 8.29 apoia isso? Penso que sim.

Como observa o erudito arminiano, Jack Cottrell, “O versículo 29 começa (após a conjunção) com o pronome relativo ‘quem’ (traduzido ‘aos’ na NVI). Como regra geral esperaríamos um antecedente para este pronome, e aqui o encontramos no v. 28, a saber, ‘aqueles que amam a Deus’. Deus pré-conheceu aqueles que o amariam, isto é, ele pré-conheceu que em algum momento de suas vidas eles viriam a amá-lo e continuariam a ama-lo até o fim. Veja o paralelo em 1Co 8.3, ‘Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele’ (ACF).[6]

Em outras palavras, Deus anteviu como sendo seus aqueles que o amariam em resposta à sua graça. Isso é apenas uma outra maneira de se referir àqueles que estão em uma união redentora com Cristo, ou, como Paulo prefere, “estão em Cristo” (cf. Rm 8.1, 2, 9, 10, 39), o que pressupõe fé salvadora. A conclusão inevitável é que Paulo tem em vista aqueles cuja resposta amorosa a Deus denuncia sua união com Cristo pela fé. A estes Deus conheceu. E, conforme o texto diz, os destinou à glória eterna, quando finalmente os filhos de Deus serão completamente conformados à imagem do Primogênito.

[1] Do hebraico, “conhecer”.
[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristão, 2007, p. 105.
[3] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007, p. 300.
[4] ARMÍNIO, Jacó. Um exame de William Perkins. In: As obras de Armínio. Volume 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 303.
[5] Ibid.
[6] Apud TITILLO, Thiago. Eleição condicional. São Paulo: Reflexão, p. 22.

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