A Compatibilidade entre a Presciência Divina e da Liberdade Humana

Por Carlos Augusto Vailatti

O autor do livro que o leitor tem em mãos já é bastante conhecido e aclamado pelo público cristão evangélico brasileiro. Por isso, receber o convite para prefaciar esta obra foi um privilégio agradabilíssimo. Com um doutorado em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e outro em teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha, William Lane Craig já teve algumas de suas obras traduzidas para o português. São elas: o seu best-seller, Apologética Contemporânea: A Veracidade da Fé Cristã (2004), Filosofia e Cosmovisão Cristã (2005), em co-autoria com J. P. Moreland, Apologética para Questões Difíceis da Vida (2010) e Em Guarda: Defenda a Fé Cristã com Razão e Precisão (2011), todas publicadas pela Editora Vida Nova. Agora, chegou a vez da Editora Sal Cultural nos brindar com a publicação de mais uma de suas obras, O Único Deus Sábio: A Compatibilidade da Presciência Divina e da Liberdade Humana.

Se há uma questão que tem atormentado a mente de filósofos e teólogos ao longo dos séculos, esta diz respeito à possibilidade ou não de conciliação entre a presciência divina e a liberdade humana. Será que estes dois importantes pólos podem ser conciliados sem que haja prejuízo a qualquer um deles? Poderia Deus prever ações humanas futuras sem necessariamente determiná-las? Ou ainda, pode o ser humano agir livremente diante de um Deus que conhece prévia e plenamente a cada um de seus pensamentos, decisões e ações futuras? Tal dilema sempre esteve presente no pensamento judaico-cristão. Contudo, algumas vozes levantaram-se a favor da confluência entre a presciência divina e a liberdade humana. No contexto judaico, mais especialmente nos Pirkê Avot (Capítulos dos Pais) 3:15, nos deparamos com a seguinte célebre frase atribuída ao Rabi Akiva: hakol tsafuy, weharshut netunah, que literalmente quer dizer: “tudo está previsto, mas a permissão foi dada”. Pode-se traduzir ainda tal expressão como “tudo está previsto (no alto), entretanto, nos foi dado o livre-arbítrio”.[1] Já no contexto cristão, Agostinho de Hipona, em sua obra De Libero Arbitrio (O Livre-Arbítrio), declarou: “[…] ainda que Deus preveja as nossas vontades futuras, não se segue que não queiramos algo sem vontade livre”.[2] Assim, amparado nesta tradição judaico-cristã de longa data, mas sem apelar para o mistério, William Lane Craig argumenta com a erudição que lhe é peculiar a favor da compatibilidade entre a presciência divina e a liberdade humana. Para ele, esses dois conceitos não são mutuamente excludentes, mas se complementam e, portanto, podem e devem conviver em perfeita harmonia.

Em O Único Deus Sábio: A Compatibilidade entre a Presciência Divina e da Liberdade Humana, Craig aborda um dos temas mais espinhosos da teologia cristã com habilidade ímpar. O livro está dividido em três partes.

Na primeira parte de sua obra, A Doutrina da Presciência Divina, o autor, escrevendo mais como teólogo do que como filósofo, menciona com profusão os principais textos bíblicos vetero e neotestamentários que descrevem Deus como Conhecedor de todos os eventos passados, presentes e futuros. Além disso, destaca duas importantes contribuições do Novo Testamento para a doutrina da presciência divina: o emprego de um conjunto de palavras gregas vinculadas ao conhecimento de Deus do futuro e a atribuição de conhecimento futuro ao próprio Cristo. Ao final desse trecho, o autor ainda discorre sobre as principais objeções levantadas contra as doutrinas bíblicas gêmeas da presciência divina e da liberdade humana e busca refutá-las biblicamente, demonstrando, assim, que sua coexistência é perfeitamente possível.

Já na segunda e mais extensa parte de seu livro, A Compatibilidade entre a Presciência Divina e da Liberdade Humana, Craig, dissertando desta vez mais como filósofo do que como teólogo, convida os seus leitores para uma intrigante viagem através dos vários argumentos filosóficos relativos ao dilema: presciência divina versus liberdade humana. Começando com a exposição dos argumentos geralmente utilizados a favor do fatalismo teológico e, explicando as falácias lógicas que os envolvem, Craig avança, apresentando, em seguida, a rejeição desse sistema de pensamento com base em quatro campos de estudo: causalidade reversa, viagem no tempo, premonição e Paradoxo de Newcomb. De forma convincente, o autor demonstra que toda a argumentação desenvolvida pelos defensores do fatalismo filosófico/teológico é logicamente falaciosa, pois infere, indevidamente, que porque um evento irá acontecer, então ele deve necessariamente acontecer. É ressaltado ainda que embora a presciência divina seja cronologicamente anterior aos eventos futuros, entretanto, os eventos futuros são logicamente anteriores à presciência divina. Merece atenção especial também o fato de Craig distinguir o fatalismo do determinismo. Para ele, o primeiro nega a liberdade humana, mas o último não necessariamente.

Por fim, na terceira e última parte de sua obra, A Base da Presciência Divina, o autor disserta sobre os conhecimentos inato/natural e médio de Deus. Acerca desse primeiro, é dito que Deus jamais aprendeu ou adquiriu o seu conhecimento, uma vez que faz parte de sua essência divina possuir um conhecimento inato de todas as afirmações verdadeiras. Quanto ao último, Craig o define como aquele segundo momento da onisciência divina de acordo com o qual “Deus conhece o que cada possível criatura faria (não apenas poderia fazer) em qualquer conjunto possível de circunstâncias”. Aqui, o autor não esconde o fato de ser um entusiasta do conhecimento médio, por entender que o mesmo explique a onisciência divina de forma filosoficamente satisfatória.

Em suma, seriam as verdades da presciência divina e da liberdade humana como os dois trilhos de uma ferrovia que, apesar de coexistirem paralelamente, nunca se tocam, mas na linha do horizonte parecem se cruzar? Pode o intelecto humano, como um trem, trafegar tranquilamente sobre esses dois trilhos, sem correr o risco de vir a descarrilar? Bem, deixemos que o próprio autor nos responda. Com a palavra, Dr. Craig.

[1] BUNIM, Irving M. A Ética do Sinai. [Trad. Dagoberto Mensch]. São Paulo, Editora e Livraria Sêfer Ltda., 1998, p.185.
[2] Cf. Livro III, Parte I, Cap.III, § 7. In: AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. [Trad. Nair de Assis Oliveira]. (Coleção Patrística | Vol.8). São Paulo, Paulus, 1995, p.157.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*